Histórias
O que falta acontecer para os gays perceberem-se como classe política? 04/10/2016
O que falta acontecer para os gays perceberem-se como classe política?

Era uma vez um candidato à prefeitura do Rio amaldiçoado até no nome. Um candidato que só está onde está por ser filho de quem é – sim, seria a mesma coisa que Lourdes Maria se candidatar à “rainha do pop”. Um candidato que reproduz o discurso de ódio de seu pai para se promover em cima dos corpos e dos direitos das mulheres, dos LGBT e daqueles que em sua opinião produzem “baixa cultura”. O mesmo candidato que pavoneia-se de ter muitos gays entre seus eleitores porque, segundo ele, “eles reconhecem que os trato com respeito, como iguais”. Como assim?

Bem, a explicação é simples. O grande paradoxo da luta por igualdade é que ela se faz afirmando a diferença, o que para vários excluídos ressoa como mais uma forma de exclusão. Além disso, os indivíduos marcados pelo preconceito são percebidos socialmente através de seus rótulos, o que cria em suas subjetividades um complexo de inferioridade que resulta nessa espécie de “mendicância da inclusão”. É o que faz com que tantos gays estejam prontos a considerar qualquer reconhecimento vindo dos heterossexuais como uma dádiva, inclusive podendo chegar aos casos extremos dos que enxergam o apagamento de nossas demandas políticas como algo bom.

O que falta acontecer para os gays perceberem-se como classe política?

Falta ter gente sendo morta todo dia por ser gay? Falta que famílias sejam desfeitas pela intolerância, com filhos sendo expulsos de casa na base da porrada enquanto pais e irmãos se transformam em agressores? Falta que um país de dimensões continentais como o Brasil tenha apenas UM deputado assumidamente gay no congresso, contra uma horda sempre crescente de políticos conservadores? Falta ouvir piada na rua, ser vítima de estupro, de chantagem ou de extorsão, apenas por causa da orientação sexual? Será que o que falta é que os governos usem as demandas LGBT como cortina de fumaça, ora prometendo mundos e fundos, ora negando direitos e promovendo a LGBTfobia? De repente está faltando alguma epidemia mundial que seja politicamente identificada com a comunidade gay, tanto por suas fragilidades estruturais quanto pelo estigma da sexualidade. Talvez o que falta seja a polícia dando dura nos guetos supostamente protegidos pelo dinheiro das boates gay, ou quem sabe seja o corte de verbas para os serviços públicos que atendam essa população em específico. Não sei, talvez a resposta esteja nas faculdades e esteja faltando um corpo acadêmico que estude gênero e sexualidade e esteja repensando masculinidade, rótulos sociais, práticas sexuais e política. Pode ser também que falte algum evento transformador, tipo um assassinato emblemático ou uma chacina na pista de dança. Será que falta a ciência procurando explicar a homossexualidade ou alguma igreja propondo-se a curá-la? Talvez falte ver o “Papa paz e amor” atacando os LGBT em prol da família tradicional cristã. Talvez falte inspiração. Talvez falta alguma diva pop que levante essa bandeira ou militantes engajados que pedem, escrevem e protestam para entender essa comunidade e melhorar suas condições de vida…

Tudo isso já tem. Entretanto, não vemos gays tomando as ruas e paralisando as cidades para exigir seus direitos. Não vemos os subgrupos dos bears, das pintosas, das Barbies, das drags, dos monogâmicos, dos poliamor e afins unindo-se sob uma única bandeira, não para apagar especificidades, mas para enfrentar os problemas comuns.

Ser respeitado não é “ser tratado como hétero” porque isso não existe. As definições de “hétero” e “homo” são relacionais, uma não existe sem a outra. Nesse contexto, não há como falar em tratamento verdadeiramente igualitário sem propor a implosão dessas categorias, coisa que jamais virá pela benevolência da “casta” considerada superior. Identidades sociais precisam ser demarcadas para que a sociedade possa ser analisada. Para que o mundo possa se transformar através da reflexão. Para que suas histórias, suas lutas e sua cultura fiquem registradas, para que se compreenda o delicado processo da formação de subjetividades. É por isso que ser “gay” ou “hétero” não faz diferença fora da arena política. Quem amamos ou “pegamos” durante a vida é algo importante, mas não tem porque representar o nosso lugar no mundo. Isso só acontece porque a estrutura de poder OBRIGA que essa distinção seja feita e dividida entre “aceitável” e “inaceitável”.

Para questionar essa discriminação, debater a igualdade, propor uma reviravolta do sistema, resistir aos ataques da moralidade ou ter uma representação política maior, é preciso que os gays de hoje entendam-se como são: uma classe de cidadãos violentados apenas por existir, mas que faz parte de todos os círculos sociais desde que o mundo é mundo. Um grupo que simplesmente não há como ignorar. Algo extremamente poderoso.

Só falta a gente perceber!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso!

Publicado pela coluna Dando Pinta, do site Os Entendidos, no portal Revista Fórum, em 28 de setembro de 2016
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